Pular para o conteúdo principal

Gestão e processos

Como fazer ficha técnica de alimentos: passo a passo com exemplo completo

A ficha técnica é o documento que padroniza o prato e revela o custo real de cada porção. Veja os campos essenciais, as fórmulas e um exemplo completo de estrogonofe de frango com todos os cálculos.

Dra. Thais Rodrigues

Dra. Thais Rodrigues

Doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos

·8 min de leitura

Se o mesmo prato sai diferente dependendo de quem está no fogão, se você não sabe dizer quanto custa exatamente uma porção do seu carro-chefe ou se as compras são feitas “no olho”, o problema tem o mesmo nome: falta de ficha técnica. Este guia explica o que é a ficha técnica de preparo (FTP), quais campos ela precisa ter, como fazer os cálculos e traz um exemplo completo, com números conferidos, para você adaptar à sua cozinha.

O que é a ficha técnica de preparo e para que ela serve

A ficha técnica de preparo é o documento que descreve, de forma padronizada, tudo o que entra em uma receita e como ela é executada: ingredientes, quantidades, perdas, rendimento, modo de preparo, equipamentos, tempo e custo. Em termos simples, é a “receita profissional” do seu negócio — aquela que permite que qualquer pessoa treinada reproduza o prato com o mesmo sabor, a mesma aparência e o mesmo custo.

Na prática, a ficha técnica cumpre quatro funções ao mesmo tempo:

  • Padronização: o cliente recebe sempre o mesmo prato, independentemente do turno ou do cozinheiro.
  • Controle de custo: você passa a conhecer o custo real de cada porção e consegue precificar com base em dados.
  • Treinamento: um novo funcionário aprende a receita lendo a ficha, sem depender da memória de quem já está na casa.
  • Planejamento de compras: com o peso bruto de cada ingrediente e a previsão de vendas, dá para calcular exatamente o que comprar — e deixar de comprar por impulso.

Por isso a ficha técnica é a base de qualquer trabalho sério de gestão operacional em restaurantes, padarias, cafeterias e marmitarias. Sem ela, controle de estoque e redução de desperdício ficam no campo da intenção.

Campos essenciais de uma ficha técnica

Existem modelos mais simples e mais completos, mas uma ficha técnica útil para a operação precisa conter, no mínimo, os itens abaixo. Pense neles como as colunas da sua planilha.

  • Identificação: nome do prato, categoria do cardápio (entrada, prato principal, sobremesa, bebida) e código, se houver.
  • Rendimento: quantidade total produzida pela receita (em kg ou litros) e número de porções, com o peso de cada porção.
  • Ingredientes: lista completa, inclusive temperos, gordura de preparo e itens “pequenos” que costumam ser esquecidos.
  • Peso bruto (PB): quanto do ingrediente é comprado/pesado antes da limpeza (com casca, osso, pele, aparas).
  • Peso líquido (PL): quanto sobra após a limpeza e o pré-preparo, pronto para uso.
  • Fator de correção (FC): relação entre peso bruto e peso líquido, que mede a perda no pré-preparo.
  • Índice de cocção (IC): relação entre o peso do alimento depois e antes da cocção, que mede ganho ou perda durante o cozimento.
  • Per capita: quantidade de cada ingrediente por porção, útil para compras e para dimensionar a produção.
  • Modo de preparo: passo a passo objetivo, com temperaturas, tempos e pontos críticos (ex.: “cozinhar até atingir 74 °C no centro”).
  • Tempo total e equipamentos: tempo de pré-preparo e preparo, utensílios e equipamentos necessários.
  • Custo: preço de compra de cada ingrediente, custo da quantidade usada e custo total da receita e por porção.
  • Apresentação: descrição da montagem e, idealmente, uma foto do prato finalizado — isso evita muita variação no salão.

As três fórmulas que você precisa dominar

1. Fator de correção (FC)

O fator de correção mostra quanto do que você compra realmente vira alimento utilizável. A fórmula é FC = peso bruto ÷ peso líquido. Exemplo: você compra 1,500 kg de peito de frango e, depois de retirar pele, gordura e cartilagens, sobram 1,200 kg. O FC é 1,500 ÷ 1,200 = 1,25. Isso significa que, para cada quilo limpo que a receita precisa, é necessário comprar 1,25 kg.

A fórmula também funciona ao contrário, e é assim que ela entra nas compras: peso bruto = peso líquido × FC. Se a produção do dia exige 6 kg de frango limpo, a compra deve ser de 6 × 1,25 = 7,5 kg. Cada cozinha tem seu próprio FC, que depende do fornecedor, do corte e da habilidade da equipe — por isso o ideal é pesar na sua operação, e não copiar tabelas prontas.

2. Índice de cocção (IC)

O índice de cocção mede o que acontece com o peso durante o cozimento: IC = peso cozido ÷ peso cru. Alguns alimentos ganham peso ao absorver água (arroz, feijão, massas) e outros perdem (carnes, legumes assados). Exemplos: 1 kg de arroz cru que rende 2,5 kg cozido tem IC 2,5; 1 kg de carne crua que resulta em 0,7 kg assada tem IC 0,7. O IC é o que permite prever o rendimento final da receita e, portanto, o número de porções.

3. Custo por porção

O custo de cada ingrediente é calculado sobre o peso bruto, porque é isso que você paga: custo do ingrediente = peso bruto × preço por kg. Somando todos os ingredientes, chega-se ao custo total da receita. Depois, custo por porção = custo total ÷ número de porções. Um erro muito comum é calcular o custo sobre o peso líquido, o que subestima o valor real — a casca, o osso e a apara foram pagos também.

Exemplo completo: ficha técnica de estrogonofe de frango

Abaixo, uma ficha técnica simplificada de estrogonofe de frango para 10 porções de 220 g. Os preços são apenas ilustrativos — substitua pelos valores das suas últimas notas de compra. Os pesos estão em quilos.

IngredientePeso bruto (kg)FCPeso líquido (kg)Preço (R$/kg)Custo (R$)
Peito de frango1,5001,251,20018,0027,00
Cebola0,2501,250,2005,001,25
Alho0,0301,200,02530,000,90
Molho de tomate0,3401,000,34010,003,40
Creme de leite0,4001,000,40020,008,00
Champignon (drenado)0,2001,000,20035,007,00
Mostarda0,0301,000,03025,000,75
Ketchup0,0501,000,05015,000,75
Óleo0,0301,000,0309,000,27
Sal e pimenta0,0151,000,0154,000,06
Total2,845—2,490—49,38

Com os totais em mãos, os demais campos da ficha ficam assim:

  • Peso líquido total (cru): 2,490 kg.
  • Peso final após a cocção: 2,200 kg (o frango perde água e o molho reduz). IC = 2,200 ÷ 2,490 ≈ 0,88.
  • Rendimento: 10 porções de 220 g (2,200 kg ÷ 10).
  • Per capita bruto: 2,845 kg ÷ 10 = 284,5 g por porção — é esse número que entra no planejamento de compras.
  • Custo total da receita: R$ 49,38.
  • Custo por porção: R$ 49,38 ÷ 10 = R$ 4,94.

Repare que o estrogonofe é servido com arroz e batata palha: cada acompanhamento tem a sua própria ficha técnica, e o custo do prato montado é a soma das fichas envolvidas. Esse é o motivo de a ficha ser feita por preparação, e não por “prato do cardápio”.

Como usar a ficha técnica na precificação

O custo por porção é a base do CMV do prato (custo da mercadoria vendida), que é a fatia do preço de venda consumida pelos ingredientes. A conta é CMV % = custo da porção ÷ preço de venda × 100. Se o estrogonofe completo (com acompanhamentos) custa R$ 7,50 e é vendido a R$ 25,00, o CMV do prato é 30%.

Também é possível fazer o caminho inverso, partindo de uma meta de CMV: preço de venda = custo da porção ÷ CMV desejado. Com custo de R$ 7,50 e meta de 30%, o preço seria R$ 7,50 ÷ 0,30 = R$ 25,00. Muita gente prefere falar em markup (fator multiplicador sobre o custo); nesse exemplo, o markup é 25,00 ÷ 7,50 ≈ 3,33.

Cuidado com as metas “ideais”

É comum ver no mercado faixas de CMV entre 25% e 35% para restaurantes, mas esse número varia muito com o tipo de operação, o ticket médio, os custos fixos, a mão de obra, os impostos e as taxas de delivery. O CMV é só uma parte do preço. Use as faixas como referência inicial e defina a sua meta a partir da estrutura de custos real do seu negócio.

Erros mais comuns ao montar fichas técnicas

  • Copiar receitas da internet sem pesar na sua cozinha. FC e IC mudam com fornecedor, equipamento e equipe. A ficha só vale se refletir a sua realidade.
  • Esquecer os “pequenos” ingredientes. Óleo, sal, temperos, limão e finalização somam centavos por porção que, multiplicados por centenas de pratos ao mês, viram um valor relevante.
  • Calcular custo sobre o peso líquido. Você paga pelo peso bruto. Calcular sobre o líquido esconde a perda do pré-preparo.
  • Não registrar o peso da porção. Sem padrão de porcionamento (concha, pegador, balança), a ficha fica no papel e o custo real continua desconhecido.
  • Fazer a ficha uma vez e nunca mais revisar. Preços de insumos mudam; a ficha precisa ser atualizada para continuar útil.
  • Modo de preparo vago. “Cozinhar até ficar pronto” não padroniza nada. Use tempos, temperaturas e pontos de verificação.

Como manter as fichas atualizadas

A ficha técnica é um documento vivo. Defina uma rotina simples: atualize os preços dos ingredientes mensalmente (ou sempre que houver reajuste relevante de um insumo principal, como carnes e laticínios), refaça a pesagem de FC a cada troca de fornecedor e revise a receita inteira quando houver mudança no cardápio ou no equipamento. Registre a data de cada revisão na própria ficha para saber o quão confiável o custo está.

Envolver a equipe na pesagem ajuda duas vezes: os números ficam mais fiéis e os cozinheiros passam a entender por que a padronização importa. Isso facilita muito o controle de perdas que detalhamos em como reduzir desperdício e CMV.

Quais ferramentas usar

Não é preciso software caro para começar. Uma planilha bem estruturada (uma aba por preparação e uma aba de preços de insumos, ligada por fórmulas) resolve a maioria das operações pequenas e médias, e tem a vantagem de ser fácil de ajustar. Sistemas de gestão para restaurantes costumam ter módulo de fichas técnicas integrado ao estoque e às vendas, o que vale a pena quando o cardápio é extenso ou há mais de uma unidade. O mais importante não é a ferramenta, e sim a disciplina de pesar, registrar e revisar.

Precisa de ajuda para fazer as fichas do seu cardápio?

A Essentia Food elabora as fichas técnicas junto com a sua equipe, pesando e testando as receitas na própria cozinha, e integra esse trabalho ao controle de estoque e de compras. Conheça a consultoria em gestão operacional e a consultoria para restaurantes.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre o tema

Quer colocar isso em prática com apoio técnico?

Converse com a Dra. Thais e descubra como a consultoria pode organizar a sua operação com segurança e resultado.

Primeiro contato sem compromisso. Atendimento humano, direto com a consultora.